CIDADES
Um panorama do câncer de próstata no Brasil
   
Estudo desenvolvido com participação de pesquisadores da Univates analisou três décadas de dados e identificou contrastes entre as regiões brasileiras na incidência, mortalidade, prevalência e carga da doença

Por Univates
21/09/2026 07h46

O câncer de próstata não se distribui de maneira uniforme pelo território brasileiro. Embora a doença esteja fortemente associada ao envelhecimento e apresente crescimento dos indicadores epidemiológicos nas faixas etárias mais avançadas, a trajetória registrada entre 1990 e 2021 apresenta diferenças marcantes entre as regiões do país. 

Sul e Sudeste concentram os maiores valores de incidência, prevalência e anos de vida perdidos por incapacidade ou morte, enquanto Norte e Nordeste apresentam, em diferentes faixas etárias, crescimento mais acelerado de determinados indicadores e dificuldades históricas de acesso aos serviços de saúde.

O contraste é um dos principais resultados de um estudo desenvolvido por pesquisadores vinculados à Universidade do Vale do Taquari – Univates que analisou a evolução do câncer de próstata no Brasil ao longo de 32 anos. O trabalho examinou quatro indicadores epidemiológicos (incidência, prevalência, mortalidade e anos de vida ajustados por incapacidade, conhecidos pela sigla DALY) e comparou seu comportamento entre as cinco macrorregiões brasileiras e diferentes grupos etários.

Publicado em 19 de agosto de 2026 no periódico internacional Cancer Causes & Control, o estudo mostra que a leitura dos dados nacionais, quando feita sem considerar as diferenças territoriais e etárias, pode esconder trajetórias epidemiológicas bastante distintas.

O estudo reúne pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas, ao Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e ao Centro de Ciências Médicas da Univates. Participaram Gabriela Daiprai (egressa do PPGCM e doutoranda do PPGBiotec), Bruna Cristina Jordon Togni (doutoranda do PPGBiotec), Maria Noêmia Souza de Alcântara (discente do PPGCM), Joana Ecco (estudante de Medicina), Ágatha Kniphoff da Cruz (estudante de Medicina) e os professores do PPGCM Fernanda Majolo e Guilherme Liberato da Silva, que é o autor correspondente.

Uma doença associada ao envelhecimento

O câncer de próstata é predominantemente relacionado ao envelhecimento e apresenta incidência mais elevada entre homens com mais de 65 anos. No estudo, os indicadores de incidência, prevalência e mortalidade aumentaram progressivamente com a idade, atingindo níveis particularmente elevados entre homens de 75 a 89 anos.

Na faixa de 70 a 74 anos, por exemplo, a taxa média de incidência chegou a 377,67 casos por 100 mil homens no Sul, enquanto no Norte foi de 272,32 casos por 100 mil. Na mesma faixa etária, a prevalência, que corresponde ao conjunto de pessoas vivendo com a doença, alcançou 2.619,50 casos por 100 mil homens no Sul, contra 1.846,18 no Norte.

A diferença, entretanto, não deve ser interpretada como evidência de que o câncer de próstata seja biologicamente mais frequente no Sul. Os próprios autores relacionam os valores mais elevados nessas regiões a fatores como maior expectativa de vida, infraestrutura diagnóstica mais estruturada, maior acesso à detecção da doença e maior sobrevida após o diagnóstico.

A distinção é importante para compreender os resultados da pesquisa, visto que uma região pode apresentar uma prevalência menor não necessariamente porque tenha menos doença, mas porque possui menor capacidade de identificar os casos, registrar os diagnósticos ou garantir que os pacientes permaneçam vivos por mais tempo após o diagnóstico.

Quando números menores também podem indicar desigualdade

O comportamento observado no Norte e no Nordeste ajuda a evidenciar essa questão. O estudo identificou indicadores absolutos mais baixos nessas regiões em diversas faixas etárias, mas também encontrou crescimento mais acentuado de incidência, prevalência e carga da doença em determinados grupos.

No Nordeste, por exemplo, a incidência apresentou os maiores aumentos anuais médios em praticamente todas as faixas etárias analisadas. Entre homens de 55 a 59 anos, o crescimento médio anual da incidência chegou a 2,57%. Na faixa de 50 a 74 anos, tanto Norte quanto Nordeste apresentaram crescimento mais pronunciado da incidência do que as demais regiões.

Os pesquisadores interpretam parte desse movimento como resultado de uma expansão recente da capacidade de diagnóstico. Quando uma população passa a ter mais acesso a exames e serviços especializados, mais casos podem ser identificados, fazendo com que a incidência registrada aumente mesmo sem que isso represente, necessariamente, uma elevação proporcional do risco biológico da doença.

O problema é que essa expansão ainda ocorre sobre uma infraestrutura desigual. O estudo aponta, por exemplo, que a Região Norte possui a menor incidência registrada, mas também apresenta limitações na disponibilidade de profissionais e serviços especializados. A análise utilizada pelos autores cita que apenas cerca de 30% dos municípios da região possuíam urologistas e que pacientes precisam frequentemente se deslocar para capitais como Belém e Manaus para acessar serviços oncológicos de maior complexidade.

Mortalidade segue caminhos diferentes

As diferenças tornam-se ainda mais expressivas quando se observa a mortalidade. Entre 1990 e 2021, o Sul e o Sudeste apresentaram reduções significativas em diferentes grupos etários, enquanto o Nordeste registrou aumento da mortalidade em algumas faixas. Entre homens de 65 a 69 anos, por exemplo, a mortalidade apresentou redução média anual de 0,64% no Sul, mas crescimento de 0,76% no Nordeste. No Sudeste, foram observadas reduções de 0,64% ao ano entre 70 e 74 anos e de 0,70% entre 80 e 84 anos.

Para os autores, essas trajetórias distintas são compatíveis com diferenças na disponibilidade e na qualidade dos serviços de saúde, no diagnóstico e no acesso a tratamentos. A redução observada em determinadas regiões é discutida em associação com avanços terapêuticos, incluindo radioterapia conformacional e terapias hormonais de segunda geração. Ao mesmo tempo, o crescimento da mortalidade em determinados grupos no Nordeste sinaliza que a incorporação desses avanços não ocorre de maneira uniforme pelo país.

O que significa medir DALY?

Um dos diferenciais do estudo é a utilização dos DALYs, sigla em inglês para Disability-Adjusted Life Years, ou anos de vida ajustados por incapacidade. O indicador permite observar a carga de uma doença para além da quantidade de diagnósticos ou mortes. O cálculo combina os anos de vida perdidos em razão de morte prematura com os anos vividos com incapacidade. Em termos simplificados, um DALY representa a perda de um ano de vida saudável. Por isso, o indicador permite dimensionar simultaneamente os efeitos fatais e não fatais de uma doença.

No câncer de próstata, essa medida produz um resultado que os autores explicitam como particularmente relevante: embora incidência, prevalência e mortalidade aumentem com a idade, o maior peso relativo dos DALYs aparece em faixas etárias mais jovens, especialmente entre 50 e 64 anos. A razão está relacionada ao impacto da morte prematura e da incapacidade sobre indivíduos que ainda estão em idade economicamente ativa. Assim, um óbito ou uma condição incapacitante aos 50 ou 60 anos representa mais anos de vida saudável perdidos do que um evento semelhante em uma idade muito avançada. No Nordeste, os DALYs entre homens de 50 a 64 anos apresentaram crescimento anual significativo, chegando a 0,85% em determinados grupos. 

 


   

mode_emailEnviar E-mail

  Fechar E-mail

  

menu
menu

Nós e os terceiros selecionados usamos cookies ou tecnologias similares para finalidades técnicas e, com seu consentimento, outras finalidades, conforme especificado na política de cookies.
Você poderá consentir o uso de tais tecnologias ao usar o botão “Aceitar”. Ao fechar este aviso, você continua sem aceitar.

SAIBA MAIS

Aceitar
Não Aceitar