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GERAL |
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O presente como um presente a si mesmo |
Quem sou eu neste início de 2026? Onde estou agora? Meus pensamentos, minha atenção, minha mente estão realmente vivendo o presente? Minha consciência está plenamente focada no contexto atual da minha vida? Quão satisfeito(a) estou ao observar o que acontece em cada dia vivido? Fazer essa autorreflexão pode ser de suma importância quando falamos em saúde mental, pois o presente é algo relativo, ainda mais quando vivemos tempos de muita angústia e ansiedade. Viver no presente é um desafio para uma mente acostumada a transitar entre o passado e o futuro. Como psicóloga, observo que grande parte do sofrimento psíquico nasce dessa desconexão com o agora.
Muitas vezes, a sensação que temos é a de que estamos sempre em viagem, como se o melhor da vida estivesse em um destino distante, lá na frente. Acreditamos também que, nessa jornada, precisamos carregar uma bagagem obrigatória e pesada, que imobiliza, dificulta o andar leve e nos impede de apreciar o caminho. Assim, ao mesmo tempo em que queremos correr, movidos pela expectativa de chegar logo, como se apenas o futuro tivesse valor e fosse capaz de nos trazer felicidade, sentimos que não saímos do lugar. Isso acontece porque o passado nos acompanha com seus pesos: culpas, arrependimentos e dores não elaborados.
Estar no agora não significa ignorar responsabilidades ou memórias. Também não é sinônimo de não ter planejamentos, sonhos e objetivos a serem alcançados, mas sim ter a consciência de que o hoje já é uma conquista e é o único momento possível de ser vivido e aproveitado. Ao passado cabe ressignificar-se e servir de aprendizado, e o futuro não está sob nosso controle. Assim, escolher olhar para o presente como o único tempo em que a vida acontece e acolher o que é possível para este momento nos torna mais conscientes e capazes de valorizar muito mais as experiências cotidianas.
Cultivar o presente é um treino diário difícil, e não um estado permanente, pois nosso cérebro evoluiu para antecipar perigos (futuro) e aprender com os erros (passado). Isso é útil para a sobrevivência, mas faz com que a mente esteja quase sempre ansiosa e ruminando, em vez de simplesmente se concentrar no presente e viver o agora. Pensar que temos o poder de controlar o que está por vir, criar roteiros de vida sobre o futuro ou alimentar pensamentos mágicos, como se tivéssemos o poder da adivinhação, é extremamente nocivo. Cria-se a ilusão do controle e, com ela, a ansiedade, muitas vezes patológica, juntamente com frustrações constantes, à medida que a narrativa sobre o futuro que imaginamos não se confirma. Mesmo que tenhamos objetivos claros em relação ao depois, é somente o hoje que nos permite agir e construir algo para que, um dia, esses objetivos se realizem.
Mas por que é tão difícil se concentrar no presente? O passado explica quem achamos que somos, e o futuro nos dá a sensação de que temos a vida sob nosso domínio. O presente, por outro lado, pode despertar emoções como tédio, tristeza, medo ou vazio. Julgamo-nos demais por aquilo que fazemos no dia a dia. Nunca é o suficiente; sempre temos que estar à frente de onde estamos. Nossa cultura valoriza a produtividade, não a presença. Desde cedo, aprendemos a “pensar no amanhã”, “correr atrás” e “não perder tempo”. Pouco se ensina sobre pausar, observar, sentir e simplesmente existir. Parece que somente aquilo que consideramos extraordinário é capaz de honrar nossa história.
Estamos iniciando um novo ano, e podemos encarar a abertura de um novo ciclo como um convite à autocompaixão, ao autoconhecimento e à busca por expectativas mais saudáveis sobre a vida. Aprendemos a apreciar o caminho da vida quando desenvolvemos consciência emocional, quando integramos frustrações, limites e perdas como partes do crescimento psíquico. É nesse momento que o sentido deixa de estar no controle e passa a estar em cada experiência vivida.
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