Setembro Amarelo: O peso do silêncio e a urgência de olhar para a dor do outro
O quanto estamos realmente dispostos a encarar a dor por trás da fita colorida?

Por Franciane Schuster, psicóloga
11/09/2026 07h53

Todos os anos, quando o calendário avança para o mês de setembro, nossas cidades e telas se vestem de amarelo. O gesto visual carrega uma intenção nobre, mas me pergunto com frequência, do lado de cá do consultório: o quanto estamos realmente dispostos a encarar a dor por trás da fita colorida?

Falar sobre a prevenção ao suicídio exige romper com a zona de conforto. Não se trata de distribuir frases prontas de otimismo ou conselhos superficiais sobre superação. Trata-se de encarar uma das realidades mais complexas e dolorosas da saúde pública contemporânea.

Em minha prática clínica diária, escuto histórias de pessoas que chegaram ao limite do esgotamento existencial. O que a sociedade muitas vezes interpreta equivocadamente como uma "vontade de terminar a vida" é, na esmagadora maioria dos casos, o desejo desesperado de encerrar uma dor que se tornou insuportável e para a qual a pessoa não enxerga mais alternativas.

Os dados corroboram a gravidade da situação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil vidas são perdidas para o suicídio anualmente no mundo sendo a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, o Ministério da Saúde aponta que cerca de 38 famílias choram a perda de um ente querido todos os dias devido ao fenômeno.

Por trás de cada estatística, existe um nome, uma rotina e um sofrimento que se desenvolveu no silêncio.

O maior obstáculo no combate ao suicídio ainda é o estigma. A dor psíquica profunda não costuma dar avisos espalhafatosos. O indivíduo em sofrimento pode continuar cumprindo prazos no trabalho, sorrindo em reuniões familiares e mantendo uma rotina aparentemente funcional, enquanto trava uma batalha devastadora no isolamento de sua mente.

Precisamos desconstruir o mito de que quem precisa de ajuda dá "sinais evidentes". Devemos atentar para mudanças sutis: o afastamento social gradual, falas de desesperança como "queria sumir" ou "sou um peso para vocês", a perda de interesse em atividades antes prazerosas e a negligência com o autocuidado.

Contrariando um receio comum, perguntar a alguém querido de forma direta e afetuosa, "Você tem pensado em desistir?" não instiga a ideia. Pelo contrário, abre uma janela de oxigênio para quem estava sufocando sozinho. A escuta empática e desarmada é o primeiro passo para resgatar a perspectiva de futuro.

Contudo, a escuta acolhedora da rede de apoio não substitui o tratamento técnico. A prevenção efetiva passa pela democratização do acesso à psicoterapia e ao acompanhamento psiquiátrico de qualidade. Tratar a saúde mental com a mesma seriedade e naturalidade com que tratamos a saúde física é uma urgência ética de toda a sociedade.

Para quem lê este artigo e sente que o peso dos dias tem se tornado difícil de carregar, deixo meu convite como profissional e ser humano: sua dor é real, mas ela não é definitiva. O sofrimento distorce a visão do amanhã, mas existem caminhos de cuidado que não exigem o seu fim. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, é o ato mais corajoso que você pode ter por si mesmo.

Cuidar da saúde mental é um ato contínuo que começa no olhar generoso para as próprias vulnerabilidades e se expande na prontidão de enxergar a dor de quem caminha ao nosso lado, que este setembro amarelo seja o lembrete permanente de que nenhum sofrimento deve ser vivido na solidão, e de que a escuta atenta, o afeto e o ato de estender a mão, seja para pedir ou oferecer apoio, são em última análise os caminhos que resgatam o sentido da vida.

Se precisar de um espaço seguro para falar sem nenhum tipo de julgamento, conte com estes canais de apoio gratuitos: CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 ou acesse cvv.org.br (atendimento 24h, gratuito e sigiloso por voz ou chat). Rede Pública: Procure o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou a UBS mais próxima.  Emergências: Em momentos de crise imediata, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro.

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